Museu Tronco, Ramos e Raizes

Retrato na parede
Festa do Rosário (Caicó 2020)

Por: Alyane Almeida (UFRN), 2020.

Outubro de 2020 – Festa do Rosário de Caicó, Rio Grande do Norte, Brasil

      A memória da minha infância tem o cortejo do reinado da festa dos negros do Rosário de Caicó. O tambor, a ponta de lança, a dança… tudo parecia ter existido desde sempre. Até que um dia fui morar distante e, numa das voltas, fiquei curiosa para saber a história dessa festa.

     O ano de 1864 está retratado no topo da igreja do Rosário. Em 1889, um ano após a abolição do regime escravocrata, nasceu José Ezelino da Costa, negro fotógrafo cuja história está contada na parede da entrada do salão paroquial. Filho de uma mulher ex-escravizada, Bertuleza Maria da Conceição, ele fotografou os membros da sua família com vestes aristocráticas.

     Hoje, os retratos da irmandade dos negros do Rosário estão presentes nas casas e nas falas. As fotografias antigas estão nos relatos sobre o que foi visto e vivido. Entre a realidade retratada e a realidade experimentada, ainda podemos encontrar a transmissão oral da história, mas sempre acompanhada de um retrato na parede.

     Com a câmera na mão e a vontade de conhecer e acessar minhas próprias memórias da festa, encontrei várias pessoas na associação da irmandade dos negros do Rosário, na casa de Pedro Mariano e Davane Costa dos Santos, na casa de Fátima Santos, na casa paroquial, na igreja e na praça do Rosário.

     Percorri caminhos físicos e imaginários. A monarquia negra narrada pelos reis e rainhas, escrivães, juízes, mestres e praticantes do batuque e da dança. Todos que pude encontrar para fotografar escolheram contar sua história na frente dos retratos pregados na parede. Apesar de todas as dificuldades e desafios, os retratos estão lá. As revelações contidas nas histórias encontram os retratos, como se eles fossem a prova concreta de um passado real.

     As paredes e as palavras. O retrato de um passado, a versão de um presente. E o que será dos retratos que ainda esperam as revelações para serem registradas pelas lentes de uma câmera? Revelar o que pode ser visto, sentido e, literalmente, retratado na festa do Rosário de Caicó, é um ato de continuidade e descoberta. Que as paredes do amanhã mantenham a memória viva.

     Alyane Almeida de Araújo, caicoense. Jurista formada pela UFRN (graduação, especialização e mestrado em direito). Cursou disciplinas no programa de pós-graduação em antropologia da mesma universidade. Atualmente faz pesquisa de doutorado em direito na Universidade de Lille, França.

     Os retratos da irmandade dos negros do Rosário estão presentes nas casas, na sede da
associação e nas falas dos seus membros. As fotografias antigas dos reinados que estão
expostas nas paredes se acompanham de relatos sobre o que foi visto e vivido. Inspiram
novas propostas para a preservação dessa tradição.
     A história da festa do Rosário em Caicó tem suas origens em 1773, momento em que a
escravização dos africanos assegurou o estabelecimento do Império. Durante os séculos XIX e
XX as festividades do folguedo marcaram a transmissão da história de resistência dos povos
afro-brasileiros. Hoje em dia, a festa do Rosário de Caicó é organizada pela associação da
irmandade dos negros do Rosário, localizada no bairro João XXIII, acontecendo sempre no mês
de outubro.

     Em 2020, devido às restrições impostas pela pandemia causada pelo Covid-19, algumas
mudanças restritivas ocorreram, como a limitação de pessoas em lugares fechados, o
distanciamento físico e a utilização de máscaras faciais, com a finalidade de reduzir o contágio
da doença.

     Mas essas mudanças não impediram a realização da Festa dentro e fora da igreja do Rosário,
nem o seu registro pelas lentes da minha câmera fotográfica. Caicoense vivendo em terras
estrangeiras, eu senti a necessidade de capturar as imagens que eram vistas desde a minha
infância como algo que precisava ser mantido para a posteridade.
Desde as minhas lembranças mais distantes, o cortejo do reinado da festa do Rosário sempre
foi para todos que assistiam um forte conjunto de estímulos sensoriais. O som, as cores, o
movimento… tudo atuando ao mesmo tempo sob os olhos do espectador, que é convidado a
vivenciar o raro momento de fusão do ritual religioso ao festivo. O tambor e a ponta de lança
são as alegorias que protagonizam a liturgia religiosa durante a festa do Rosário.
Nos últimos três dias de festa em 2020, tive a oportunidade de vivenciar não somente a
experiência de assistir a festa, mas também de registrá-la. Percorri caminhos físicos e
simbólicos, cheios de significado. Fátima, presidente da Associação da Irmandade, abriu as
portas para que eu pudesse transitar nos lugares de encontro da corte perpétua e da
irmandade, segundo me foi narrado. A sede da irmandade, a casa do senhor Pedro Mariano, a
casa paroquial, a igreja e a praça do Rosário.
     Os reis e rainhas, escrivães, juízes, mestres e praticantes do batuque e da dança, todos enfim
que pude encontrar para fotografar escolheram contar sua história frente aos retratos
pregados na parede. São décadas de reinados da irmandade e do congado cheias de
curiosidades, tramas, rupturas e tentativas de continuidade, apesar de todas as dificuldades e
desafios.
     As revelações contidas nas histórias encontram os retratos à prova de um passado real. A
galeria dos reinados, na sede da irmandade, tem o nome de Pedro Mariano dos Santos, em
memória ao guardião do pioneiro dessa tradição que teve a ideia de conservar a história dos
reinados. O senhor Pedro Mariano não está mais entre nós, mas em sua casa no mesmo Bairro
João XXIII, a sua esposa, Dona Davane Costa dos Santos, filhas e filhos, netas e netos seguem
mantendo vivos os festejos do reinado perpétuo; a parede especialmente montada com fotos
cuidadosamente guardadas continua sendo um lugar onde se conservam as memórias vivas.

     O relato final de uma entrevista concedida pela Rainha Perpétua do Congo, Ana Santana dos
Santos, ao lado da Rainha da Irmandade do Rosário de 2020, Maria Lucilene da Silva, ocorreu
na mesa em frente ao cartaz de José Ezelino da Costa, fotógrafo negro seridoense nascido em
1889. Seus discursos foram livres e sem intervenções. As palavras retratam como elas se
definem e o que esperam das revelações registradas pelas lentes de uma câmera.
Retratar a festa do Rosário de Caicó significa transmitir a tradição em manter a memória do
evento através da fotografia. Esses retratos, que antes eram realizados com câmeras
analógicas, agora são feitos em câmeras digitais. Revelar o que pode ser visto, sentido e,
literalmente, retratado na festa do Rosário de Caicó, é um ato de reconhecimento e
continuidade. Que os retratos de hoje sirvam para manter a existência dos que estarão
pregados nas paredes do amanhã.
     Os registros foram feitos por mim, Alyane Almeida de Araújo, caicoense neta de Dona Maria e
Seu Tobias. Possuo formação em direito pela UFRN (graduação, especialização e mestrado) e
cursei disciplinas no programa de pós-graduação em antropologia da mesma universidade.
Atualmente faço pesquisa de doutorado em direito sobre igualdade profissional de gênero na
Universidade de Lille, França.