Notas subjetivas e encantadas de uma viagem para o Seridó
Por: François Weigel (UFRJ), 2019.
“Sertão, estes seus vazios”… se exclamava Riobaldo, em “Grande sertão: veredas”. É preciso ter humildade ao se embrenhar pelos sertões, essas vastidões vazias. Ainda mais porque sou francês, um animal urbano, agarrado ao litoral nas duas cidades brasileiras em que morei, Natal e o Rio de Janeiro.
É com essa humildade frente a um mundo desconhecido, e com alegria também, que resolvi acompanhar uma equipe de antropólogos até a região do Seridó. Mesmo assim, não esperava que essa experiência pudesse ser tão enriquecedora e renovadora.
Já no primeiro dia, no ônibus, passando por Santa Cruz e logo Currais Novos, a professora Julie nos falou da preservação das memórias indígenas e africanas no Seridó e da construção de culturas através da comida, da música, das danças assim como das representações sociais e dos relatos que passam e se transformam de geração em geração. Logo, Janaína aludiu à “resiliência” da natureza do sertão e da emoção que ela sempre sente ao observar as pequenas oásis com ipês amarelos ou juazeiros, mas sobretudo a catinga e essas árvores brancas, raquíticas, que permanecem em pé e nos dão, a nós seres humanos, uma lição de resistência e força! Irremediavelmente eu penso nessas outras palavras do sábio Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa: “o sertão é dentro da gente”.
Não consigo dar conta de tudo o que eu vivi em apenas três dias no Seridó. Foi na charmosa cidade de Jardim do Seridó que pude ver, pela primeira vez, uma dança do Espontão. Tais passos agis e marcados, no ritmo dos tambores, nos remete ao tempo remoto dos Reis dos Congados, mas também traz em si mesmo toda a história dos escravos e dos negros alforriados do Brasil, resistindo contra o esquecimento e a aculturação; e, por fim, nos leva ao momento atual, à consciência negra e ao orgulho de afirmar uma identidade afro-brasileira. Isso me chamou a atenção: a dança do Espontão e as procissões das irmandades negras não correspondem com um folclore imóvel, fixado no tempo, mas sim com uma cultura viva, praticada por muitos jovens, que ao mesmo tempo reivindicam a herança do passado e reinventam as tradições.
Vimos também pinturas rupestres velhas de vários milenários e foi algo comovente subir, ardendo sob o sol e por entre uma vegetação rasteira, até uma pedra sobre a qual manifestações artísticas coletivas testemunham da força de uma cultura, contra a erosão do tempo e a brutalidade dos “vencedores”. Mesmo depois da chacina conhecida coma a “Batalha dos Bárbaros”, mesmo nos tempos atuais em que políticas mercantilistas e oportunistas seguem ameaçando fortemente as tribos indígenas remanescentes, há ali, no meio do sertão, umas pedras em que, de certa forma, os “vencidos” ainda se expressam e nos desvelam um pouco do que foram, do que são.
Resiliência, resistência. São também palavras que ecoam com o filme Bacurau. Conhecemos vários atores, antes anônimos sertanejos, na comunidade quilombola de Boa Vista, onde assistimos à missa de Nossa Senhora do Rosário, no sábado, e à procissão do domingo. Fomos também até a aldeia da filmagem, a Barra, um lugar perdido no que parece ser o fim do mundo. Lá, uma mulher sentada numa cadeira de palha nos falou de um jeito manso e, sem mais nem nada, acabou por nos convidar na sua casa para tomar um banho e lavar o suor. Enquanto ela nos contava como tinha simpatizado com Sônia Braga e como chegou a ser a costureira da equipe de Kléber Mendonça, podíamos saborear doces de banana e de goiaba, talvez os melhores que já comi nessa vida…
E já que estou falando de comida, como não falar das galinhas caipiras, dos cafés da manhã fartos, da feijoada na casa de Sebastião, Gege e Paulinho, novos amigos do Seridó, ou do peixe que comemos no Boqueirão, uma represa cujas águas mansas dão ao semi-árido um ar mais suave e delicado. Sou guloso, não vou negar, mas afinal comida é cultura, comida é um dos modos mais imediatos e ricos da expressão de um povo: daí meu entusiasmo imenso quando provei o chouriço, um doce surpreendente e delicioso a base de sangue de porco e farinha de mandioca, rapadura, canela e castanha de caju.
Ah, sertão! Sertão do Seridó, do Vale do Catimbau (que conheci há três anos) ou de outros mares! Você me fascina, mas é melhor parar por aqui as descrições dos seus encantos, pois afinal você guarda ainda tantos mistérios para mim, um francês ingênuo perdido nos trópicos, e talvez seja melhor deixar a palavra para um poeta do sertão, Patativa de Assaré, a fim de cantar a “tua beleza que é tanta”…
Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá.













































































